Até aí, a maior parte das pessoas pensava que o Râguebi era um desporto violento praticado por um conjunto de brutamontes com braços e ombros enormes. Em 2007, a imagem dos jogadores portugueses a chorarem como bebés ouvindo “A Portuguesa”, antes dos jogos do Mundial, correu mundo, e fez ver ao povo luso que afinal os “brutamontes” ainda são mais sensíveis que muitos dos futebolistas que as pessoas costumam idolatrar.
Se o Râguebi pode ser praticado por pessoas sensíveis, então também pode ser praticado por mulheres, pensou Marta Ferreira (actual capitã do CR Técnico) em 2007. Depois de pesquisar, Marta encontrou um “mundo desconhecido”, pois nunca imaginou que no estrangeiro fosse possível haver milhares de mulheres praticantes de Râguebi. Para além deste facto, a jogadora do Técnico descobriu que o Mundial e o famoso Torneio das 6 Nações também eram disputados no sector feminino.
Assim, nasceu o “bichinho” pela modalidade, que pratica com gosto e alguma mestria. Campeã portuguesa em 2009/2010, Marta e as suas colegas do Técnico conseguiram uma proeza inimaginável: acabar com a hegemonia do Benfica, claramente a melhor equipa portuguesa de râguebi feminino, pois tem no seu plantel várias internacionais que jogam juntas desde a época 2001/2002.
Para além do Técnico e do Benfica, as Pescadoras da Costa de Caparica e a Escola Superior Agrária de Coimbra também inscreveram o seu nome na lista de vencedores do Campeonato Português de Râguebi Feminino.
Em entrevista ao DN, Marta Ferreira revela que o mais difícil para uma jogadora é separar-se dos seus “brincos, colares, ganchos, medalhas e até das unhas de gel”.
No entanto, afirma categoricamente que as suas colegas “não temem o contacto físico e adoram placar, embora haja uma ou outra mais tímida e que ainda vai ao choque com muito medo”.
Quando questionada sobre as diferenças entre o Râguebi masculino e o feminino, Marta Ferreira respondeu que “existem duas: uma técnica e uma táctica”, acrescentando que “no râguebi masculino pode-se placar até ao pescoço, no feminino só são permitidas placagens até à zona do peito; a segunda diferença tem a ver com o tipo de abordagem aos jogadores, ou seja, no masculino, o treinador fala para o colectivo ou para um sector em especial, no feminino, as conversas são direccionadas para uma pessoa em particular, é tudo mais profundo e sentimentalista”.
O treinador Carlos Polainas concorda com a sua pupila, embora revele que “todas as jogadoras do Técnico têm um espírito guerreiro e muita raça”.
O técnico das campeãs portuguesas revela ainda que “o trabalho no râguebi feminino é muito dificultado pela protecção que os pais dão às jogadores, pois muitos deles não querem que as suas filhas aparecem em casa cheias de nódoas negras e arranhões. No entanto, importa realçar que neste momento já se consegue arranjar um grupo de 20 jogadoras que treinam regularmente”.
O treinador do Técnico terminou as suas declarações dizendo que as jogadoras fazem trabalho de musculação “várias vezes por semana”, mas sempre “com muita calma”, pois nenhuma delas quer “perder as suas formas femininas, nem aumentar de peso”.
A terminar, importa referir que a única selecção portuguesa de râguebi feminino constituída oficialmente (a equipa de Sevens) irá participar no próximo Europeu da especialidade, que decorrerá em Julho, na cidade russa de Moscovo.
Jornalista: João Miguel Pereira

